sexta-feira, novembro 03, 2006

762. Medina Carreira e a encruzilhada em que estamos


Assisti ontem a uma prelecção do Prof. Henrique Medina Carreira, aqui em Setúbal, e, confesso, se tenho andado muito preocupado, de há bons anos para cá, com a situação económica do país (e com tudo o que com ela ou dela resulta) ontem fiquei simplesmente aterrado!

Em resumo, diz o senhor que, mesmo com as medidas que estão a ser tomadas, à bruta, com pouca ou nenhuma sensibilidade, não se vai chegar a qualquer bom porto, porque a coisa está muito pior do que se admite, por razões eleitorais, e, tendo chegado ao que chegou, a única maneira de se ir "lá" está em alguém convencer os portugueses a trabalhar muito mais e muito melhor, devidamente preparados escolar e profissionalmente, pondo de parte reivindicações de toda a ordem e tendo paciência durante uns bons e largos anos. Só assim será viável tornarmo-nos viáveis.

Refere mesmo, tal como o havia já feito antes - veja-se Medina Carreira preocupado com o "rumo" de Portugal - que se o país continuar a seguir o mesmo caminho, poderá ter, em 2015, um défice do PIB à volta dos 12 por cento.(2006.03.03 SIC online)

Em resumo, o nosso problema é tão simples como isto: nunca tivemos, continuamos a não ter e não se vê que isso deixe de acontecer dinheiro para as extravagâncias que nos "enchem as medidas".

E, ou abrimos os olhos e passamos a fazer pela vida, de modo a conseguirmos, com trabalho e esforço, parcimónia nos gastos sumptuosos e estúpidos a que nos entregamos, ou não iremos a parte alguma. Até mesmo porque, como toda a gente sabe, a nossa política económica não mais é ditada em e por Portugal, como o não é em Espanha ou em qualquer outro país da UE.

Éramos cidadãos normais de um mundo normal.

Até que nos habituámos, primeiro, às regalias que nos eram facultadas pelas especiarias do Oriente, "o cravo e a canela" de que falava o poeta. Depois, essa fonte secou e andámos aos "caídos", até que nos surgiu o ouro do Brasil, com que fizemos mais umas farras loucas. Acabado também esse filão, mantivemo-nos na apagada e vil tristeza até que surgiram os fundos comunitários. E de todos eles vivemos à tripa forra, e, como a cigarra, em alegre e irresponsável forrobodó. Até que chegou a hora de ajustar contas. E por aqui nos quedamos...

Medina Carreira vai estar na RTP1, na próxima 2ª feira, em debate com o Ministro das Finanças, no "Prós e Contras".

Curioso foi também ter dito que, aquilo que ontem nos disse e mostrou, com gráficos de toda a espécie, muito acessíveis, tem tentado mostrar na TV, de forma a que todos fiquem com a noção do que REALMENTE se passa.

Nas taxativas palavras dele, porém, as TVs têm-no impedido disso, recusando-lhe espaço. Coisa que ainda desta vez não vai conseguir por prever que o debate acabe por, como sempre acontece em Portugal, nada deixar esclarecer.

Por aquilo que ontem vi e ouvi por ele explanado, estou convicto de que, como de pão para a boca, estamos a necessitar urgentemente de umas pedradas no charco e que, assim, todos teríamos a ganhar se lhe fosse dado tempo de antena suficiente e sem interrupções, para expor toda a sua posição sobre o assunto. Depois, quando fosse julgado conveniente, o mesmo deveria ser feito com o ministro da Finanças, ou com quem o governo entendesse, para dizer de sua justiça.

Todos ficaríamos a ganhar com o assunto, muito mais esclarecidos, embora eu julgue que ficaríamos - tal como eu já estou - deveras assustados com a situação a que realmente chegámos. O homem merece ser ouvido, até porque, estou crente, estamos todos a precisar mesmo de um grandíssimo e aterrorizante abanão, que nos faça acordar do torpor ignorante, estúpido e cretino em que nos têm feito andar de há muitos anos a esta parte.
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NB.- A este propósito, valerá a pena ler o que Medina Carreira publicou no blog "Grande Loja do Queijo Limiano", em 25 de Outubro de 2005, há mais de um ano, pois, sob o título No fio da navalha. Se bem que mais claro poderia ser-se levado a pensar que era impossível, o que é certo é que, falando para auditório presente e interventivo, o Professor consegue ser muito mais elucidativo. E arrepiante. Por não esconder nada.
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9 comentários:

Sulista disse...

«Conversa da Treta» a dele(s)!!!! (não é a tua Ruben)

Dinheiro há, mas é gasto só por uns quantos e mal, muiiiiiiiiiiiiito mal gasto!!

Eles que comecem a trabalhar como nós, a população faz e a não serem chulos nem demagógicos.



ps- Good Trip Oriental ;-)

Beijinho

Ruvasa disse...

Viva, Maria João!

Admito que sim. No entanto, este tem sido coerente. Pelo menos desde que lhe presto atenção, ou seja, de há uns bons 20 anos para cá.

E os números e factos que apresenta impressionam e assustam, podes crer. Talvez por isso não o deixem preleccionar a sós nas TVs.

Beijinho

Ruben

Sulista disse...

...é verdade mas isso não tira o facto de que os (des)investimentos e as negociatas feitas pelos sucessivos desgovernos é que nos têm levado a esse mísero panorama.

Se cuidassem dos verdadeiros interesses do país em vez dos deles e dos amigos deles...

Mas o pessoal gosta de sofrer...continuam a votar e a votar sem fim neles todos...ai ai

outro beijinho

Bom Garfo disse...

Lembro-me de MC dizer em directo, na RTP em 1979 (salvo erro), quando os preços da gasolina sofreram um aumento inusitado, que "os portugueses deveriam começar a andar de burro". Isto não é história!
Penso que não é preciso dizer mais nada sobre MC. Com a idade, só piora.

Ruvasa disse...

Viva, Bom Garfo!

Sei que não é história, porque me lembro desse episódio. Mas então tratou-se de uma graça, embora um tanto pesada.

O certo é que os argumentos do homem são - à mon avis, claro! - absolutamente imbatíveis.

Abraço

Ruben

Sulista disse...

PRÓS E CONTRAS
...já me tinha esquecido
de como Medina Carreira é um finório armado ao importante e mal educado.
Qt ao Ministro, nem tenho palavras...foi preciso os três civis da plateia falarem a verdade para ficarem sem 'voz'...foi bonito de se ver!
Mas durou pouco...reina o quero, posso e mando dos mentcapos...


Beijinho

Ruvasa disse...

Viva, Maria João!

Refiro-me ao "Pós e Tontas" no post de hoje, com o nº 763.

Beijinhos

Ruben

H. Sousa disse...

Que estamos em época de vacas escanzeladas, disso ninguém duvida. Que prcisamos trabalhar a sério, também não duvido. Mas com os exemplos que temos dos que tomam conta disto, é legítimo pensar-se que os governantes e seus acólitos apenas nos querem espremer o sumo todo e comer a carne toda devido à sua insaciável sede e desmedida voracidade.

Ruvasa disse...

Viva, Henrique Sousa!

Pois, o busílis da questão é o exemplo que vem de cima.

E, a acompanhá-lo, tudo o que está para trás, que nos faz desacreditar completamente de tudo e de todos.

Mas que era bem preciso que alguém - não enfeudado a interesses espúrios - e com um mínimo de conhecimentos e capacidade de exposição, dispusesse de uma tribuna para pôr tudo às claras, lá isso era.

E, uma vez mais, não aparece esse alguém e, se aparece, não lhe é dada a mínima oportunidade de chamar os bois pelos nomes e esclarecer o que deve ser esclarecido.

Se alguém expusesse na TV aquilo que Medina Carreira expôs na prelecção a que me refiro no post, fundamentadamente, estou em crer que não haveria português de boa fé que não começasse a pensar seriamente no assunto, que será muito mais grave do que por aí têm dito.

Ninguém de boa fé pode pretender que os cidadãos se congreguem num objectivo comum, se antes não der o exemplo e não explicar o que se pretende e vai fazer e as razões - as fundas razões, não as razõezitas parcelares e mal-intencionadas - porquê.

Abraço

Ruben