terça-feira, novembro 07, 2006

763. Como era de esperar


O soi-disant debate de ontem no “Prós e Contras” da RTP1 não desmereceu do que é hábito neste tipo de encontrões à esquina, tão característicos da política portuguesa.

O que, noutras paragens deste planeta, em doses mais ou menos elevadas, serve para esclarecer os cidadãos acerca da situação do respectivo país, das posições de cada um dos intervenientes no debate e das soluções possíveis, em Portugal tem servido – sempre, valha-nos Deus! – apenas para provocar ruído ou, quando muito, para que um dos intervenientes – o conjuntural detentor do poder – se espraie em considerações menores e desviantes, tendentes a camuflar a verdade a todo o custo ou, quando menos, a abafar a verdade alheia - e menorizada - em detrimento da verdade própria, por via de regra engrandecida, mesmo e principalmente quando sem mérito descortinável.

Uma vez mais foi o que se verificou ontem no Pós e Tontas, de Fátima Campos Ferreira.

Já se esperava que o “encontro” para nada servisse que não uma amena cavaqueira de tontices, sem interesse nenhum para o esclarecimento do fundo da questão que é, não esqueçamos, a razão por que, 32 anos após a Revolução de Abril, estamos onde estamos e como estamos, e bem assim a tentativa de “achamento” de uma qualquer solução ou conjunto de soluções que possa levar-nos a começar a sair desta vil tristeza em que todos estes senhores, que tanto falam mas nada de útil dizem, nos meteram.

É certo que três dos intervenientes (e mais três assistentes a quem generosamente foi concedida a palavra como se lhes estivesse a ser oferecido o Reino dos Céus) ainda tentaram mexer as coisas e entrar na abordagem do que realmente interessa.

Na verdade, Daniel Bessa, Medina Carreira e Octávio Teixeira – uns com mais tacto do que outros e outros menos simpaticamente do que uns (embora a simpatia aqui não colha, porque não se pode dizer coisas duras que têm que ser ouvidas, de forma doce, sob pena de não se ser ouvido ou ser-se tomado por igual a tantos vendedores de banha da cobra que por aí andam a vender mezinhas milagreiras que apenas agravam a doença) – deram uns lamirés relativamente ao tal fundo da questão.

Como, porém, o “dono” do programa era o ministro, Teixeira dos Santos, e a mestre de cerimónias, Fátima Campos Ferreira, com aquele esganiçamento de voz e entradas e interrupções infelizes e a despropósito a que já nos vamos habituando, não deixou de estar bem atenta, esses pequenos fogachos sempre que tentados de imediato foram apagados, pelo que chegámos ao fim do entertainment ignorantes como chegáramos, é certo, mas também felizes e contentes como quem é enganado, mas não sabe.

Sendo certo que, como - pressuroso, antes que para a sua capelinha fosse lançado algum petardo - veio esclarecer Luís Marinho, Director de Informação da RTP, o “Prós e Contras” não é "programa de informação", mas sim levado a efeito pela Direcção de Programas - a tal que também se responsabiliza pela emissão de “O preço certo”, de "Dança comigo" e de outros fait divers interessantíssimos e que causam enorme gáudio à malta - há que dar um desconto.

No entanto, estes arremedos de debate deveriam ter lugar apenas lá pelas 4 da madrugada – que é quando a gente decente e trabalhadora está a dormir, retemperando forças para o dia seguinte – e com bolinha vermelha no canto superior direito do écran ou, por menos inaceitável, em períodos de campanha eleitoral, em que, por norma e consensualmente, se abre a gaiola para que toda a passarada habitual se liberte por momentos e mostre, grasnando aos quatro ventos, a incompetência, nuns casos, a má intenção, em outros, que no âmago lhe vai.

Os programas para esclarecimento real da população deveriam ocorrer de forma muito mais séria e competente, em entrevistas a solo, por gente preparada (por que carga de água não é um programa deste teor moderado por especialista no tema?!?!) a gente sabedora do que diz e como diz, capaz de explicar o que explicado tem que ser, sem peias, por não estar tolhida por teias partidárias ou outras, ainda que essa gente, pouco diplomática, possa chocar umas quantas cabeças que valorizam mentiras maviosas, emolientes, em detrimento de brutas verdades, sobressaltadoras.

Enquanto, porém, as coisas se mantiverem como estão – e estão-no há três décadas, pelo que são já uma real e venerável instituição – nada a fazer.

E assim, cá vamos, cantando e rindo… levados, levados, sim...

2 comentários:

O Raio disse...

Este programa veio na senda do que é norma na Comunicação Social portuguesa, afastar o cidadão das reais causas do descalabro em que estamos.
Os problemas de Portugal são essencialmente dois (ainda por cima com alguma relação entre eles), o termos aderido ao euro e o termos uma baixa taxa de natalidade.
Enquanto não nos conseguirmos livrar do euro e enquanto não conseguirmos elevar a taxa de natalidade a crise continuará.

Ruvasa disse...

Viva, Raio!

A primeira condição, não parecendo, até é mais fácil de levar à prática do que a segunda.

É que a tesura foi-se. Nem o Viagra resolve...

Abraço

Ruben